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Ben Bernanke: o acadêmico que salvou o Fed em 2008

Por Captain Trading··8 min

Um professor de economia passa vinte anos analisando, estatística após estatística, como o Federal Reserve deixou o sistema bancário americano entrar em colapso entre 1929 e 1933. Em 2006, esse homem é nomeado à frente dessa mesma instituição — dois anos antes que a pior crise financeira desde a Grande Depressão estourasse diante de seus olhos. Ben Bernanke não herdou o cargo por acaso: foi justamente sua expertise acadêmica sobre os pânicos bancários da década de 1930 que fez dele o homem certo para a situação quando o Lehman Brothers quebrou.

Um retrato da trajetória de um acadêmico que se tornou o bombeiro-chefe do sistema financeiro mundial, antes de receber, em 2022, o prêmio Nobel por ter teorizado exatamente o papel que acabara de desempenhar. Para situar seu mandato na linha do tempo, o histórico completo dos presidentes do Fed percorre toda a linhagem, de William McChesney Martin a Jerome Powell.

O essencial

  • Nascido em 13 de dezembro de 1953 na Geórgia, formado em Harvard e depois no MIT: trajetória puramente acadêmica, sem passagem por Wall Street.
  • Especialista reconhecido na Grande Depressão e no papel do Fed em seu agravamento — a expertise que justificou sua nomeação em 2006.
  • Presidente do Fed de 1º de fevereiro de 2006 a 31 de janeiro de 2014, sob dois presidentes (Bush e depois Obama) e dois mandatos.
  • Confirmado em 2010 por 70 votos a 30 — a margem mais estreita já obtida por um presidente do Fed até então.
  • Arquiteto das três ondas de quantitative easing (QE1, QE2, QE3) e de sete anos de taxa básica de juros em zero (2008-2015).
  • Fez o FOMC adotar, em janeiro de 2012, a primeira meta de inflação explícita de 2% de sua história.
  • Uma frase pronunciada em 22 de maio de 2013 diante do Congresso ("taper tantrum") bastou para abalar os mercados emergentes.
  • Um dos ganhadores do prêmio Nobel de Economia de 2022, por suas pesquisas sobre bancos e crises financeiras.

Juventude e formação: um produto puramente acadêmico

Ben Bernanke nasce em 13 de dezembro de 1953 em Augusta, na Geórgia, e cresce em Dillon, na Carolina do Sul. Nada, nesse ponto de partida, o distingue a priori de um futuro banqueiro central: nenhuma fortuna familiar, nenhuma rede de contatos em Wall Street. O que o distingue é a formação. Graduação em economia obtida summa cum laude em Harvard em 1975, seguida de doutorado em economia no Massachusetts Institute of Technology (MIT) em 1979 — duas instituições que formavam, na época, boa parte da elite acadêmica americana.

A carreira acadêmica: o homem que sabia por que 1929 tinha degenerado

Bernanke não ingressa imediatamente na esfera pública. Ele leciona primeiro na Stanford Graduate School of Business, como professor assistente e depois associado, de 1979 a 1985. Em seguida, ingressa em Princeton em 1985, onde permanece como professor por quase vinte anos e preside o departamento de economia de 1996 a 2002.

É durante esses anos que se constrói sua reputação: a de especialista incontornável na Grande Depressão e, mais precisamente, no papel ativo desempenhado pelo Federal Reserve em seu agravamento — aperto monetário mal calibrado, recusa em assumir o papel de credor de última instância, colapso em cadeia do sistema bancário por falta de intervenção. Essa expertise não é um detalhe de currículo: é ela que, alguns anos depois, explicará por que é justamente esse homem que se coloca à frente do Fed no momento em que a história parece se repetir.

A nomeação de 2006: suceder Greenspan

A passagem para a esfera pública começa em 2002: Bernanke ingressa no Board of Governors do Fed, em licença de Princeton, onde permanece até 2005. Em seguida, de junho de 2005 a janeiro de 2006, assume a presidência do Council of Economic Advisers sob George W. Bush — a antessala direta da nomeação seguinte.

George W. Bush o escolhe para suceder Alan Greenspan, cujo mandato termina após dezoito anos à frente da instituição. O Senado confirma Bernanke em 31 de janeiro de 2006; seu primeiro mandato vai de 1º de fevereiro de 2006 a 31 de janeiro de 2010. Barack Obama o renomeia em 25 de agosto de 2009, e o Senado confirma esse segundo mandato em 28 de janeiro de 2010 — mas por apenas 70 votos a 30, a margem mais estreita já registrada para um presidente do Fed até aquela data. Um resultado que já revelava as tensões políticas nascidas da gestão da crise: alguns senadores acusavam o Fed de ter salvado os bancos aos bilhões enquanto o desemprego explodia. Esse segundo mandato vai de 1º de fevereiro de 2010 a 31 de janeiro de 2014.

A crise de 2008: quando a teoria se torna urgência absoluta

Bernanke é nomeado presidente apenas dois anos antes da pior crise financeira desde 1929. Em setembro de 2008, o Lehman Brothers quebra; o Fed e o Tesouro organizam, na sequência, o resgate da AIG para evitar o efeito dominó. Em dezembro de 2008, o FOMC reduz a taxa básica de juros para uma faixa de 0 a 0,25%: a margem de manobra convencional está esgotada, é preciso inventar novas ferramentas.

É aí que entra em cena o primeiro programa de afrouxamento quantitativo, o QE1, lançado em 25 de novembro de 2008: até US$ 600 bilhões em compras de ativos, envolvendo a dívida da Fannie Mae e da Freddie Mac, além de títulos lastreados em hipotecas. O programa ganha força até seu término em março de 2010, somando ao todo US$ 1.250 bilhões em títulos hipotecários, US$ 175 bilhões em dívida de agências e US$ 300 bilhões em títulos do Tesouro recomprados. O objetivo: injetar liquidez diretamente no sistema quando o canal da taxa básica de juros deixa de funcionar. É exatamente o tipo de resposta que o acadêmico Bernanke cobrava, décadas antes, do Fed dos anos 1930 por não ter colocado em prática.

Os anos seguintes: QE2, QE3 e o "taper tantrum"

O QE1 é apenas o primeiro capítulo. A recuperação continua frágil, a desinflação ameaça se transformar em deflação: o Fed anuncia em agosto de 2010 um segundo programa, o QE2, implementado em novembro de 2010, no valor de US$ 600 bilhões adicionais em títulos do Tesouro. Dois anos depois, em setembro de 2012, ele vai ainda mais longe com o QE3: um programa "open-ended", sem data de término anunciada previamente, com compras mensais de US$ 40 bilhões em títulos hipotecários, complementadas já em janeiro de 2013 por US$ 45 bilhões mensais adicionais em títulos do Tesouro.

Em janeiro de 2012, sob sua presidência, o FOMC dá um passo estrutural: adota, pela primeira vez em sua história, uma meta de inflação explícita de 2%. Essa formalização do duplo mandato — estabilidade de preços e pleno emprego — ainda hoje estrutura cada decisão de política monetária americana.

Mas o episódio mais revelador do poder da palavra de um presidente do Fed ocorre em 22 de maio de 2013. Durante uma audiência no Congresso, Bernanke menciona, quase de passagem, a possibilidade de reduzir o ritmo das compras de ativos do QE3. O rendimento dos títulos do Tesouro de 10 anos, que estava em 1,94% no dia anterior, sobe para 2,03% já no dia seguinte, e continua sua trajetória até 2,96% em setembro de 2013. A onda de choque atinge em cheio os mercados emergentes: capitais que refluem, moedas que despencam, episódio conhecido desde então como "taper tantrum". Uma frase, pronunciada sem qualquer anúncio formal de aperto monetário, basta para abalar a economia mundial — a melhor demonstração possível do que se tornou a comunicação de um presidente do Fed.

"Helicopter Ben": uma reputação forjada bem antes da crise

Bernanke é amplamente qualificado como dovish: prioridade constante ao apoio ao emprego e à prevenção da deflação, mesmo que isso signifique manter uma política ultra-acomodatícia por sete anos consecutivos — as taxas permanecem próximas de zero de 2008 a 2015, bem além do fim de seu segundo mandato.

Seu apelido, "Helicopter Ben", no entanto, não vem da crise: remonta a um discurso proferido em 21 de novembro de 2002 diante do National Economists Club, em Washington, quando ele ainda era apenas um simples governador do Fed. Nele, afirma que a instituição empregará "todos os meios necessários para prevenir uma deflação significativa", em referência explícita ao conceito de "helicopter money" teorizado por Milton Friedman. O apelido gruda nele bem antes de ter a oportunidade de colocar a teoria em prática.

Sua comunicação pública também tem suas turbulências. Em 5 de dezembro de 2010, em uma entrevista ao 60 Minutes, da CBS, ele afirma: "We're not printing money" ("não estamos imprimindo dinheiro"). A frase surpreende, pois em uma entrevista anterior ao mesmo programa, em março de 2009, ele havia reconhecido, ao contrário, que a ação do Fed estava "muito mais próxima da impressão de moeda do que do endividamento". Um contraste que ilustra a dificuldade, para um banqueiro central, de explicar ferramentas monetárias inéditas sem nunca se contradizer.

Depois do Fed: de Brookings ao Nobel

Em 31 de janeiro de 2014, Bernanke cede seu lugar a Janet Yellen, primeira mulher a dirigir a instituição. Em seguida, ele ingressa na Brookings Institution como Distinguished Senior Fellow, onde continua seus trabalhos sobre política monetária e crises financeiras. Em 2015, publica suas memórias, "The Courage to Act: A Memoir of a Crisis and Its Aftermath", um relato de dentro dos meses mais críticos de 2008.

O ciclo se fecha em outubro de 2022: Bernanke recebe o prêmio Nobel de Economia, compartilhado com Douglas Diamond e Philip Dybvig, "por suas pesquisas sobre bancos e crises financeiras". O acadêmico que passara a carreira explicando por que o Fed havia falhado na década de 1930 se torna o homem que gerencia, em tempo real, a pior crise financeira desde aquela época — e depois recebe a mais alta distinção acadêmica por ter tido razão no fundo. Para aprofundar o contexto institucional de suas decisões, os arquivos de federalreservehistory.org detalham cada etapa de seu mandato.

Perguntas frequentes

Quem é Ben Bernanke?

Ben Bernanke é um economista americano nascido em 1953, professor em Princeton e especialista acadêmico na Grande Depressão, que se tornou o 14º presidente do Federal Reserve de 2006 a 2014. Ele geriu a crise financeira de 2008 e recebeu o prêmio Nobel de Economia em 2022.

Por quanto tempo Ben Bernanke foi presidente do Fed?

Ele exerceu dois mandatos consecutivos, de 1º de fevereiro de 2006 a 31 de janeiro de 2014, ou seja, oito anos no total: nomeado por George W. Bush e depois renomeado por Barack Obama em 2010.

O que é o quantitative easing lançado por Bernanke?

O quantitative easing (QE) designa as compras massivas de ativos — dívida de agências, títulos hipotecários, títulos do Tesouro — realizadas pelo Fed para injetar liquidez depois que a taxa básica de juros é reduzida a zero. Bernanke lançou três ondas sucessivas: QE1 em 2008, QE2 em 2010 e QE3 em 2012.

Por que Ben Bernanke é apelidado de "Helicopter Ben"?

Esse apelido vem de um discurso de novembro de 2002, proferido antes de sua presidência, no qual ele evocava o conceito de "helicopter money" de Milton Friedman para descrever a disposição do Fed de usar todos os meios disponíveis contra a deflação.

O que foi o "taper tantrum" de 2013?

Foi a reação violenta dos mercados de títulos e das moedas emergentes depois que Bernanke mencionou, em 22 de maio de 2013 diante do Congresso, uma possível redução das compras de ativos do QE3: a taxa americana de 10 anos passou de 1,94% para quase 3% em poucos meses.

Ben Bernanke recebeu o prêmio Nobel?

Sim: em outubro de 2022, ele recebeu o prêmio Nobel de Economia, compartilhado com Douglas Diamond e Philip Dybvig, por suas pesquisas sobre o papel dos bancos nas crises financeiras.

Quem sucedeu Ben Bernanke à frente do Fed?

Janet Yellen o sucedeu em 1º de fevereiro de 2014, tornando-se a primeira mulher a presidir o Federal Reserve.

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